Cuidando de quem cuida



Quando pensamos em uma internação na UTI, normalmente pensamos somente no paciente. Mas quando alguém precisa ser internado, a família inteira entra junto nessa experiência. São dias de espera, de medo, de incerteza. A rotina muda. Muitos familiares deixam de dormir direito, param suas atividades e se colocam em segundo plano para acompanhar quem está internado. Talvez você esteja vivendo isso agora. E é justamente por isso que hoje entendemos algo essencial: cuidar de você também faz parte do cuidado com o paciente.

Receber a notícia de que alguém da família vai para a UTI costuma ser um momento marcante, de muita ansiedade. E mesmo quando a pessoa está se recuperando bem, a tristeza, o medo e aquela sensação de impotência podem continuar aparecendo.

Esses sentimentos nem sempre se desfazem após  a alta. Tem familiar que segue com dificuldade para dormir, com o humor abalado, sem conseguir retomar a própria rotina. Alguns revivem com frequência as lembranças da internação. Nada disso é sinal de fraqueza. São reações comuns diante de uma situação extremamente estressante.

Durante muito tempo se acreditou que restringir as visitas ajudava a organizar o trabalho dentro da UTI. Hoje as pesquisas mostram o contrário, pois a  presença do familiar traz conforto e segurança para o paciente num momento de grande vulnerabilidade. Quando a família participa mais do cuidado, entende melhor o tratamento, conversa de forma mais próxima com a equipe, a experiência toda se torna menos angustiante. As dúvidas são esclarecidas, a comunicação melhora e a sensação de impotência diminui.

Estudos realizados no Brasil acompanharam familiares durante um ano após a internação. Quem pôde permanecer mais tempo ao lado do paciente apresentou menos sintomas de estresse pós-traumático nesse período. Ou seja, o cuidado oferecido durante a internação continua fazendo bem muito depois da alta. Abrir espaço para a família não é só um gesto de acolhimento, é uma estratégia com base em evidências científicas.

Cada UTI tem suas próprias normas, mas em geral há muitas formas de estar presente. Durante a visita, converse com o paciente, toque nele, mesmo que ele pareça não entender ou não responder.  Faça com que ele sinta que você está ali.

Aproveite também para conversar com a equipe de saúde. Pergunte sobre o tratamento, tire suas dúvidas e conte o que você sabe sobre o seu familiar, seus os hábitos, as preferências, os detalhes que só quem convive conhece. Essas informações ajudam muito no cuidado.  Se houver previsão de alta, esteja por perto para planejar juntamente com a equipe interdisciplinar  os próximos passos, tanto na saída da UTI quanto na volta para casa. Pequenos gestos fazem diferença e ajudam a conectar o paciente às pessoas que o amam.

Não é incomum  colocar toda a energia no paciente e se esquecer de si mesmo, mas  ninguém consegue cuidar de outra pessoa estando completamente esgotado.

Assim, dentro do possível, tente se alimentar bem e descansar. Aceite ajuda de quem se oferece, seja da família, dos amigos ou de alguém da sua rede de apoio. Divida responsabilidades. Tente reservar  um tempo do dia para caminhar, respirar, conversar com alguém de confiança. Isso pode ajudar a te dar condições de apoiar quem mais precisa de você agora.

A saída da UTI costuma ser motivo de grande alegria e,ao mesmo tempo, marca o início de uma fase que também exige cuidado. Muitas pessoas precisam de reabilitação, novos medicamentos, acompanhamento multidisciplinar  e atenção em casa. E a família continua sendo fundamental nesse processo.

Procure compreender as orientações da equipe de saúde e aprender a reconhecer os sinais de alerta. Organize a rotina de cuidados e, sempre que possível, divida as tarefas com outros familiares, pois ninguém precisa passar por isso sozinho.

Algumas reações emocionais são esperadas nesse caminho, mas se a tristeza, a ansiedade, o medo ou a insônia persistirem por semanas e começarem a atrapalhar a sua vida, procure ajuda profissional. Médicos e outros profissionais da saúde podem orientar você e oferecer o apoio necessário. Cuidar da saúde mental faz parte da recuperação.

A recuperação após uma internação na UTI não envolve apenas o paciente, mas sim toda a família. Quando os familiares são acolhidos, recebem informações claras, participam do cuidado e encontram espaço para se cuidar, todos saem fortalecidos.

Uma UTI humanizada é aquela que abre as portas para a família, com escuta, acolhimento e troca de informações, pois cuidar de quem cuida também é uma forma de cuidar de quem está se recuperando. E você não precisa enfrentar esse caminho sozinho.


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Jennifer Menna Barreto de Souza
CREFITO- 242943-F

Jennifer Menna Barreto de Souza

Fisioterapeuta, especialista em Terapia Intensiva, mestre e doutoranda em Ciências Pneumológicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atua como pesquisadora no Hospital Moinhos de Vento, participando da condução de estudos multicêntricos nas áreas de terapia intensiva, reabilitação, COVID-19. Possui experiência assistencial em Unidade de Terapia Intensiva e desenvolve pesquisas com foco em reabilitação, implementação de intervenções em saúde, pesquisa clínica e avaliação de desfechos em pacientes críticos.


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