Por que devemos nos preocupar
com
reabilitação após a Sepse?



Sepse é o nome dado a uma infecção grave, com potencial de causar risco de vida à pessoa acometida. São exemplos de infecções que podem cursar com Sepse: pneumonia, infecção urinária, infecção de pele, infecção intestinal e Covid-19. A Covid-19 também pode causar sepse e, nos quadros graves que levam um paciente à necessidade de respirador e ventilação mecânica, são classificados como sepse.
É inegável que, no decorrer das últimas décadas, a taxa de mortalidade intra-hospitalar relacionada à sepse vem decaindo em virtude de um melhor conhecimento da condição e da melhoria da qualidade assistencial.

Os tratamentos empregados para os casos na fase aguda da sepse têm melhorado, e cada vez mais pacientes recebem alta vivos do hospital após um episódio de sepse. Entretanto, para uma grande parcela dos sobreviventes de sepse, receber alta do hospital é apenas o primeiro passo de uma longa jornada de reabilitação, uma vez que sequelas físicas, cognitivas e de saúde mental, são muito prevalentes e podem causar um grande impacto na qualidade de vida, como dificuldade de retorno ao trabalho e estudos, estresse financeiro para o núcleo familiar, além de importante impacto na saúde mental, tanto de pacientes, como de familiares, que estão junto ao paciente e envolvidos no cuidado.

Os quadros de sequelas pós-sepse, também podem prejudicar o sistema de saúde como um todo, devido aos gastos associados à recuperação após a alta hospitalar.

Existem diversos fatores que explicam essa associação entre sepse e sequelas em longo prazo:

  • Gravidade da infecção: Quanto maior a gravidade da sepse e quanto mais disfunção de órgãos e sistemas o paciente apresentar na fase aguda da doença, maior é o risco de apresentar sequelas.
  • Fatores associados à saúde do indivíduo antes da doença: Quanto mais idoso for o paciente, quanto mais comorbidades ele tiver e quanto maior a complexidade de suas doenças de base, maior é o risco de o paciente representar sequela após a sepse.
  • Fatores relacionados aos tratamentos utilizados para salvar a vida do indivíduo na fase aguda: Antibióticos, sedativos, bloqueadores neuromusculares e, até mesmo, a ventilação mecânica, são aliados importantes no tratamento da sepse, especialmente para os casos mais graves, e que aumentam as chances de sobrevivência. Contudo, não são isentos de eventos adversos e podem contribuir para sequelas em longo prazo.
  • Reabilitação: Após a sepse, quanto mais rápido o paciente tiver acesso a um plano de reabilitação personalizado, focando nas suas necessidades, maior será chance de recuperação e mais rápido essa pessoa retornará para a sociedade como um (a) cidadão (ã) que era antes do episódio de infecção.

Quais são os sinais e sintomas que podem estar associados a uma sequela após a Sepse?

Os sintomas de incapacidade pós-sepse são bastante variados e por isso necessitam de uma avaliação especializada, de um médico e de um profissional de saúde treinado. Existem três grandes domínios da saúde que podem ser acometidos pela sepse: saúde física, cognição e saúde mental.

Em relação à saúde física, o paciente pode apresentar fraqueza, cansaço, fadiga e falta de ar. Esses sintomas, em conjunto, podem causar uma redução da capacidade física, ou seja, o indivíduo não apresenta a mesma capacidade física que tinha antes do episódio de sepse. O paciente pode apresentar tosse, lesões de traqueia (nos casos em que houve necessidade de ventilação mecânica) que podem necessitar de um manejo bem específico. Distúrbios e dificuldade para a deglutição também podem estar presentes e aumentar o risco de desnutrição e pneumonia aspirativa (por aspiração de conteúdo da cavidade oral) sendo esta última uma das grandes causas de re-hospitalização após a sepse. O paciente também pode apresentar lesões por pressão na pele, também conhecidas como “escaras” ou “úlceras de pressões”, devido à imobilidade e gravidade do episódio de sepse. Podem ocorrer, também, contraturas das articulações, causando dor crônica.

Em relação à saúde mental, os pacientes podem apresentar dificuldade de concentração, alteração de memória, dificuldade de recordar fatos recentes de sua vida e redução na velocidade de raciocínio. Estes fatores muito importantes para que a pessoa possa retornar aos estudos, trabalho e volte a ser produtivo. Tanto os pacientes, quanto os familiares podem apresentar sintomas de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático.

No caso de perda de um ente querido por uma infecção grave, os familiares podem apresentar um quadro denominado “luto patológico”, que é um quadro de luto anormal com grande impacto na qualidade de vida.

A boa notícia dentro de todo esse quadro de sequelas após a sepse é que grande parte delas são reversíveis. Desta maneira, através de uma correta identificação, estabelecimento de um plano de reabilitação e de engajamento, tanto do paciente como dos familiares, nesse processo de reabilitação, é possível que o paciente encurte esse período de incapacidade e recupere a sua saúde plena apresentada antes do episódio de infecção. Para isso, é necessário que o paciente acometido por sepse, passe por uma avaliação de um profissional da saúde que faça um diagnóstico de quais são as incapacidades que estão prejudicando a sua vida para que se possa estabelecer um plano de reabilitação.

Como mencionado no início, essas incapacidades com a sepse são bastantes heterogêneas, e alguns pacientes vão precisar mais de reabilitação física, através de programas de exercícios (fisioterapia), já outros pacientes vão precisar mais de acompanhamento de saúde mental, com psicólogo ou psiquiatra. Já em outros casos, os pacientes necessitam mais de uma avaliação cognitiva, através de acompanhamento com neurologista, com medidas de reabilitação da cognição e com terapia ocupacional. Alguns pacientes podem apresentar um misto dos três grandes acometimentos: saúde física, mental e de cognição. Por isso, enfatizamos a necessidade da avaliação de um profissional de saúde experiente para que se possa estabelecer um plano de reabilitação, para recuperação da saúde o mais rápido possível.

Para resumir, os pacientes sobreviventes de sepse podem apresentar uma série de sequelas físicas, cognitivas, e saúde mental que são tipicamente duradouras, subdiagnosticadas e podem causar um grande impacto na vida do indivíduo. Entretanto, essas sequelas são reversíveis em sua grande maioria, e o rápido acesso às medidas de reabilitação podem impactar de maneira positiva na vida do paciente. Além disso, os familiares são fundamentais para a recuperação do paciente, e podem ser acometidos por sequelas, principalmente, relacionados à sua saúde mental.


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Regis Goulart Rosa
CRM-RS 31801

Regis Goulart Rosa

Médico intensivista titulado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira, mestre e doutor em medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pós-doutor em ciências da reabilitação pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, pesquisador do Hospital Moinhos de Vento, membro do comitê executivo da Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva e membro do Instituto Latino Americano de Sepse.

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