Depoimento – Julia P. Linhares

Foram as horas mais decisivas de todos os 31 anos da minha vida. Cada minuto contava. Foram os momentos de resistência física e psicológica mais duros e intensos que jamais imaginei que passaria. Mas aprendi que a vida não se molda de acordo com nossas expectativas e desejos; somos nós que devemos nos adaptar ao que o destino tem reservado para nós.

Uma noite, senti as piores cólicas abdominais, que evoluíram para hipotensão com taquicardia, sudorese e desmaio. Corrida ao hospital, exames, cultura de bactérias, constatação de sepse abdominal com desidratação severa, início da administração do antibiótico venoso. Suboclusão intestinal, gastroparesia estomacal e pielonefrite renal. Transferência para a internação na Unidade Semi-Intensiva. Início da reposição volêmica, sonda nasogástrica, jejum absoluto, vômitos, lavagem intestinal. Sentia uma sede tão intensa que pedia para molharem meus lábios com um pedaço de gaze umedecida. A desidratação e a hipotensão continuavam, com evolução para choque séptico. Transferência para a UTI. Colocação de cateter venoso central, pressão arterial invasiva, uso de noradrenalina. Me vi cercada por bombas de infusão contínua que apitavam sem parar, cateteres, sondas, tubos, fios, monitores, máquinas, quase todo o aparato tecnológico e de potência de uma UTI. E de um entra e sai ininterrupto de médicos e enfermeiros para infundir medicação, trocar as bombas, limpar curativos, dar banho e coletar sangue.

Por um milagre de Deus e da equipe médica e de enfermagem, recebi uma segunda chance de vida e, livre da zona de perigo, retornei à Semi-Intensiva. Ali, voltei a me readaptar a uma alimentação mais normal. Tive reações ao antibiótico (náuseas e diarreia) que foram se normalizando após a administração de probióticos. Na semi-intensiva, estava ligada a menos sondas e cateteres do que na UTI, e cada equipamento desconectado era um sinal de vitória e comemoração. Sentia que estava jogando um jogo. Sabia que não estava pronta para ir para casa, mas, às vezes, a vontade de sair correndo daquele confinamento era enorme e me devorava. A única conexão com o mundo externo era a janela fechada do quarto do hospital e as andadas com os fisioterapeutas pelo corredor do andar, com a camisolinha padrão dos pacientes internados, onde eu tentava olhar para dentro das portas abertas de alguns quartos iguais ao meu. Queria desesperadamente ver qualquer coisa diferente do ambiente do meu quarto. Via, na maioria, pessoas idosas doentes e me sentia ainda mais diferente por estar ali. Conversava com a psicóloga do hospital, dentre outras coisas, que a vida não nos prepara para aquele momento até realmente estarmos ali, e eu ficava imaginando todas as pessoas que conhecia em como lidariam com situações como essa.

Julia P. Linhares

Posso dizer que, depois de muito sangue, suor e lágrimas (literalmente), não sei como, mas venci o jogo. Foram 10 dias. Tirei forças, às vezes, não sei de onde — só podia ser de Deus —, porque a única opção era resistir ou resistir.

Gostaria de agradecer imensamente à equipe multidisciplinar que está por trás dos cuidados dos pacientes e que nós desconhecemos. E aos que cuidaram de mim e a quem cheguei a me apegar no meio da dor e da angústia. E aos que correram por aqueles corredores daquela UTI com os pedidos e resultados dos meus exames e dos medicamentos, sabendo que, na sepse, o tempo salva vidas.

Agora, as próximas semanas e meses serão de outro jogo, também difícil, mas fora de perigo e em casa: o gradual processo de reabilitação do meu corpo pós-sepse grave.

Foto e depoimento: Julia P. Linhares – Rio de Janeiro/RJ


 

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