Depoimento – Luiz G. S. Maziero

Gostaria de compartilhar meu relato sobre a minha experiência com a sepse. Tenho 27 anos e, quando contraí a sepse, tinha 24. Foi nesse período que sofri dois choques sépticos e, desde então, minha vida se tornou bastante desafiadora. Naquele momento, não compreendia a gravidade do que havia me ocorrido; desconhecia que uma bactéria já existente em meu organismo poderia provocar danos tão significativos, como até uma paralisia no corpo inteiro (não afetando do pescoço para cima).

Tudo começou em 2023, entre outubro e novembro, quando fiz uma tatuagem extensa em meu braço esquerdo, em uma única sessão que durou quase 16 horas. Iniciei o procedimento às 11 horas da manhã e só terminei às 3 da manhã. Após a tatuagem, começaram a surgir diversos furúnculos em meu braço. Antes de os furúnculos aparecerem, adquiri várias pomadas para cuidar da tatuagem, mas não tomei os cuidados necessários em relação à sua higienização. Com frequência, aplicava as pomadas, mas não higienizava as mãos adequadamente, devido à correria do meu trabalho como chefe de cozinha. Esse descuido resultou no surgimento de furúnculos, o que me levou a buscar atendimento médico.

Após o aparecimento dos furúnculos, o médico prescreveu cefalexina para mim. Eu a ingeri pensando que seria como uma dipirona ou qualquer outro remédio que pudesse ser tomado de forma casual. No entanto, quando se trata de antibióticos, a questão é mais séria: é necessário tomá-los nos horários corretos. Eu me esforçava para seguir essa orientação à risca, mas, como sou chefe de cozinha e meu trabalho é bastante corrido, conseguia tomar a medicação apenas ao meio-dia, embora devesse tomá-la a cada 8 horas. Muitas vezes, ao chegar às 8 da noite, não conseguia lembrar se havia tomado a dose do meio-dia. Nesses episódios, acabei ingerindo por diversas vezes dois comprimidos de cefalexina, o que resultou na resistência dessa bactéria já presente em meu organismo.

As dores na região lombar, principalmente do lado direito, começaram a surgir, e a situação chegou a um ponto em que precisei me afastar do trabalho devido à intensidade da dor. No mesmo dia em que fui ao médico, recebi um laudo de três dias de atestado. Fui medicado diretamente no hospital — não recordo se havia tomado Tramal ou morfina para evitar que a dor continuasse. Mesmo assim, ela continuou. Embora mais leve, a dor não desapareceu completamente. Ao término dos três dias, ela retornou com mais intensidade, vindo acompanhada de febres de 39 graus.

Ao final do atestado, retornei ao médico, desta vez acompanhado da minha mãe, que desejava assegurar que eu realizasse um exame de sangue. Durante essa consulta, quando ela solicitou o exame ao doutor, foi observado que havia anomalias significativas nos meus resultados laboratoriais. E isso resultou na minha internação, onde tive meu primeiro choque séptico, que levou uma hora e meia para que eu voltasse à vida.

Luiz Maziero
Luiz Maziero

Fiquei algumas semanas nesse mesmo hospital e depois fui transferido para outro, pois ali não havia especialista em neurologia. Chegando lá, fizeram diversos exames e tiraram a conclusão de que eu tinha uma apendicite, mas eu não tinha isso. Era novamente a bactéria: ela tinha perfurado meu intestino e jogado todas as fezes para o organismo. A minha sorte foi essa bactéria não ter se alojado no coração. Desse episódio, fui reanimado com mais rapidez (meu primeiro episódio, que levou uma hora e meia, foi o mais grave).

Depois desse episódio, fui melhorando e tendo progressos significativos. Até que, depois de algumas semanas de melhora, após ter tirado o tubo, acabei tendo uma pancreatite aguda grave seguida de duas paradas cardíacas, o que resultou em vinte e poucos dias de jejum. Foi o maior pesadelo da minha vida: não poder tomar água. Nossa, como foi ruim aquilo! E, sem contar que ainda não tinha totalmente os movimentos do corpo, então necessitava das pessoas. Fiz diversas coisas dentro da UTI que eu não aconselho nenhuma pessoa a fazer. Cheguei a pegar uma bactéria dentro do hospital que, só de colocar o cobertor, me dava febre. Eu me aproveitava disso para “tomar água”, porque eu ganhava compressa molhada; com o próprio rosto, eu ia jogando o paninho para a boca para chupar, pois ele ficava com água. Até o médico descobrir. Eles ficaram abismados com aquilo! Mas, ao mesmo tempo que hoje eu dou risada, era grave: eu não podia tomar água. Hoje eu entendo a gravidade do que poderia ter acontecido comigo.

Resumo de tudo: foram dois choques sépticos e duas paradas cardíacas, seguidas de uma pancreatite aguda grave. Sou mais um sobrevivente da sepse e estou aqui para contar minha história, minha vitória e minha luta contra essa superbactéria. Hoje estou voltando a andar; já recuperei quase todos os movimentos do corpo. Estou voltando a andar na bengala, porém ainda com o auxílio do andador (praticamente 100% com andador). Faço uso de fralda — não consegui sair da fralda ainda por conta de uma lesão que acabei criando devido ao tempo acamado.

Hoje, em 2026, completam-se 2 anos desde que tudo aconteceu. Neurologistas, médicos, fisioterapeutas, todos que olham os meus laudos falam que o que eu passei foi muita coisa, por mais que eu seja novo. Eu sou um milagre e sei o tamanho da luta que eu carreguei e da vitória que venho trazendo. A sepse não é brincadeira. Muitas pessoas precisam saber da real importância dessa bactéria, principalmente os jovens. Eu fui “premiado” e não imaginava que poderia ter sido contemplado por ela através de uma simples tatuagem!

Luiz G. S. Maziero - São Paulo/SP

Luiz G. S. Maziero – São Paulo/SP

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